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munoterapia com células CAR-T em hematologia-oncologia pediátrica: avanços e desafios

Imunoterapia com células CAR-T em hematologia-oncologia pediátrica: avanços e desafios

Categoria:Terapia CAR-T

O câncer infantil é uma das principais causas de mortalidade por doença em crianças e adolescentes. Apesar de sua raridade em comparação ao câncer em adultos, seu impacto é devastador. Entre os tipos mais comuns de neoplasias pediátricas estão os tumores hematológicos, como a leucemia linfoblástica aguda (LLA), que representa aproximadamente 25% de todos os cânceres na infância.

Nos últimos anos, a medicina oncológica foi profundamente transformada pelo avanço das imunoterapias. Entre elas, destaca-se a terapia com células CAR-T (Chimeric Antigen Receptor T-cell), que representa uma das mais inovadoras e promissoras abordagens no combate a cânceres hematológicos, principalmente em casos pediátricos refratários aos tratamentos convencionais.

Este artigo apresenta uma visão ampla sobre o uso da CAR-T em hematologia-oncologia pediátrica, abordando seu funcionamento, eficácia clínica, desafios e o papel pioneiro da Celluris como protagonista no desenvolvimento e democratização dessa tecnologia no Brasil e na América Latina.

O que é a imunoterapia com células CAR-T?25

A imunoterapia com células CAR-T é uma forma de tratamento personalizado que utiliza o próprio sistema imunológico do paciente para combater células tumorais. A técnica consiste na coleta dos linfócitos T do paciente, que são posteriormente modificados em laboratório para expressar receptores específicos, os CARs, capazes de reconhecer antígenos tumorais, como o CD19, presente em células B leucêmicas.

Essas células modificadas são então expandidas em número e reinfundidas no organismo do paciente, onde passam a atuar como “caçadoras” de células tumorais. O mecanismo permite uma ação altamente específica, com potencial de remissões completas mesmo em pacientes com câncer resistente a múltiplas linhas de tratamento.

Aplicações em oncologia pediátrica

A principal aplicação da terapia CAR-T na pediatria tem sido no tratamento da leucemia linfoblástica aguda de células B recidivante ou refratária. Crianças e adolescentes que não respondem à quimioterapia tradicional ou que recaem após transplante de medula óssea passaram a ter, com a CAR-T, uma nova possibilidade terapêutica.

Estudos clínicos em diversos países demonstraram taxas de resposta impressionantes, com remissões completas alcançadas em aproximadamente 80% dos casos tratados com CAR-T direcionado ao antígeno CD19. O uso da terapia também se estende a linfomas de células B e está em estudo para outros tipos de câncer hematológico e até mesmo tumores sólidos, embora com desafios adicionais.

Vantagens da CAR-T em pacientes pediátricos

Uma das maiores vantagens da terapia CAR-T em crianças é a profundidade das respostas obtidas, mesmo em situações de doença avançada. A possibilidade de atingir remissão completa com uma única infusão de células representa uma mudança de paradigma em comparação a tratamentos prolongados com quimioterapia e radioterapia.

Além disso, a especificidade da CAR-T pode permitir uma redução significativa na toxicidade a longo prazo, o que é particularmente importante em pacientes pediátricos, cujo crescimento e desenvolvimento podem ser impactados por terapias agressivas. Isso se traduz em melhor qualidade de vida e menores complicações tardias.

Outro ponto favorável é a personalização do tratamento. Como as células CAR-T são produzidas a partir das células do próprio paciente, há menor risco de rejeição e efeitos imunológicos adversos, favorecendo a segurança do procedimento.

Efeitos adversos e riscos associados

Apesar dos benefícios, a imunoterapia com CAR-T não está isenta de riscos. Um dos principais efeitos colaterais observados é a síndrome de liberação de citocinas (CRS), uma resposta inflamatória sistêmica intensa causada pela ativação em massa das células CAR-T. Em alguns casos, a CRS pode ser grave e exigir cuidados intensivos.

Outro efeito adverso possível é a toxicidade neurológica (ICANS), que pode se manifestar com confusão mental, convulsões e outros sintomas neurológicos transitórios. Ambos os efeitos, embora geralmente manejáveis com suporte clínico adequado, requerem que os centros de tratamento estejam preparados com infraestrutura especializada e equipes multidisciplinares experientes.

Além disso, ainda existem incertezas sobre a durabilidade da resposta e a persistência das células CAR-T no organismo, especialmente em longo prazo. A possibilidade de recaídas também existe, principalmente em casos onde o tumor perde a expressão do antígeno alvo da terapia.

Desafios para a adoção da CAR-T na pediatria

A introdução da terapia CAR-T na rotina da hematologia-oncologia pediátrica enfrenta obstáculos significativos. Um dos principais é a complexidade logística e técnica envolvida na produção das células. O processo exige laboratórios certificados, equipamentos de alta tecnologia, equipes treinadas e um sistema regulatório robusto.

Outro desafio é o custo elevado da terapia, que limita seu acesso em muitos países. Nos Estados Unidos e Europa, o preço de uma infusão de CAR-T pode ultrapassar US$ 400.000 apenas em custo do produto. Em países com menos recursos, como o Brasil, esse valor torna o tratamento inacessível para a maioria dos pacientes, a menos que haja produção local e políticas públicas de suporte.

A descentralização da produção e o desenvolvimento de plataformas nacionais são essenciais para viabilizar o acesso à CAR-T de forma mais ampla. Isso exige investimentos em pesquisa, infraestrutura e parcerias entre instituições públicas e privadas.

Adaptação hospitalar e políticas públicas para implementação da CAR-T

Além das barreiras clínicas e logísticas, há a necessidade de uma transformação estrutural nos centros de tratamento. A aprovação de terapias como o tisagenlecleucel levou à criação de planos nacionais de incorporação de medicamentos avançados, como observado na Espanha. Esses planos preveem a certificação de centros hospitalares aptos não apenas a administrar a CAR-T, mas, em alguns casos, a produzi-la internamente. Essa proposta de verticalização do processo visa aumentar a autonomia, reduzir custos e acelerar o acesso dos pacientes às terapias.

Para que a CAR-T seja integrada com sucesso à rotina hospitalar pediátrica, é fundamental que as instituições adaptem seu modelo assistencial. Isso envolve desde a criação de comitês clínicos especializados até a implementação de fluxos específicos para seleção, monitoramento e acompanhamento dos pacientes. Sem esse alinhamento entre inovação terapêutica e infraestrutura hospitalar, o potencial da CAR-T pode ser subutilizado, especialmente em populações pediátricas vulneráveis e com acesso limitado a centros de referência.

A necessidade de centros especializados

Para que a terapia CAR-T seja incorporada de forma eficaz à oncologia pediátrica, é fundamental que os hospitais estejam preparados para sua administração. Isso implica não apenas em ter acesso à tecnologia, mas também em dispor de unidades de internação especializadas, protocolos clínicos definidos e equipes multidisciplinares capacitadas para lidar com os efeitos adversos e o acompanhamento pós-tratamento.

Além disso, alguns centros podem vir a atuar também na fabricação das células, criando um modelo autossuficiente e mais ágil. Isso representaria um avanço significativo na consolidação da imunoterapia como parte integral do arsenal terapêutico oncológico.

Perspectivas futuras da CAR-T em pediatria

O futuro da terapia CAR-T é promissor e envolve diversas frentes de expansão. Pesquisas estão em andamento para desenvolver novas gerações de CAR-T que visem outros antígenos além do CD19, ampliando as indicações da terapia para outros tipos de leucemias, linfomas e até tumores sólidos.

Há também estudos voltados à combinação da CAR-T com outras estratégias terapêuticas, como inibidores de checkpoint imunológico, terapias alvo e até quimioterapia de baixa dose, potencializando os resultados clínicos.

Outro avanço esperado é a redução dos custos e a simplificação da logística de produção, o que pode permitir que a terapia seja realizada em centros de médio porte, ampliando ainda mais seu alcance.

O impacto transformador da CAR-T na oncologia pediátrica

A imunoterapia com células CAR-T representa uma verdadeira revolução na hematologia-oncologia pediátrica. Com seu potencial de curar doenças antes consideradas intratáveis, ela oferece uma nova esperança para crianças e adolescentes com leucemias e linfomas refratários.

Entretanto, para que essa esperança se torne realidade para todos, é necessário enfrentar os desafios logísticos, financeiros e estruturais associados à sua implementação. Empresas como a Celluris têm papel central nesse processo, desenvolvendo soluções tecnológicas locais, promovendo o acesso equitativo e colocando o Brasil na vanguarda da biotecnologia aplicada ao tratamento do câncer.

O futuro da oncologia pediátrica passa, sem dúvida, pela expansão e consolidação da terapia CAR-T e, com o envolvimento de iniciativas inovadoras e comprometidas, esse futuro está cada vez mais próximo.

Leia também em nosso blog sobre Terapia com células CAR-T em doenças autoimunes e alergias: a próxima fronteira da medicina personalizada.

Referência bibliográfica:       
MIRONES, Isabel et al. Immunotherapy with CAR-T cells in paediatric haematology-oncology. Anales de Pediatría (English Edition), [S.l.], v. 93, n. 1, p. 59.e1-59.e10, jul. 2020. DOI: https://doi.org/10.1016/j.anpedi.2019.12.014. Acesso em: 04 dez. 2025.