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Terapia com células CAR-T em doenças autoimunes e alergias

Terapia com células CAR-T em doenças autoimunes e alergias: a próxima fronteira da medicina personalizada

Categoria:Terapia CAR-T

A terapia com células CAR-T já transformou o cenário do tratamento de cânceres hematológicos, como leucemias e linfomas. Agora, um novo e promissor capítulo dessa abordagem vem sendo explorado no campo das doenças autoimunes e, mais recentemente, das alergias severas. Um estudo de grande impacto, publicado na revista científica Allergy em 2025, apresentou evidências concretas sobre o potencial terapêutico das células CAR-T em pacientes com lúpus, esclerose sistêmica e miopatias inflamatórias idiopáticas.

Este artigo explora como a terapia CAR-T está se expandindo para além do câncer, sendo aplicada no tratamento de doenças autoimunes e alérgicas e por que essa abordagem representa uma das mais promissoras da medicina de precisão contemporânea.

O que é a terapia com células CAR-T?

As células CAR-T, ou linfócitos T com receptor de antígeno quimérico, são modificadas geneticamente para reconhecer e eliminar células-alvo específicas. Inicialmente desenvolvidas para atacar células tumorais que expressam antígenos como o CD19, essas células têm se mostrado altamente eficazes em cânceres hematológicos. Agora, o mesmo princípio está sendo aplicado para direcionar células imunes autorreativas envolvidas em doenças autoimunes e alergias graves. As células CAR-T eliminam transitoriamente os linfócitos B autorreativos, permitindo a regeneração de um sistema imune tolerante.

Resultados promissores em doenças autoimunes

O estudo conduzido por Schett e colaboradores marcou um ponto de virada no uso da terapia celular em contextos além da oncologia. Foram incluídos quinze pacientes com doenças autoimunes graves e refratárias: oito com lúpus eritematoso sistêmico (LES), três com miopatias inflamatórias idiopáticas (IIM) e quatro com esclerose sistêmica (SSc). Todos haviam passado por múltiplos tratamentos imunossupressores sem sucesso.

Após a infusão das células CAR-T anti-CD19, os pacientes experimentaram uma rápida expansão celular no organismo, acompanhada da depleção quase completa das células B em menos de uma semana. Esse esvaziamento do compartimento de células B foi seguido por uma repopulação gradual, cerca de 112 dias depois, com predomínio de células B imaturas do tipo naïve, o que reduz o risco de recorrência autoimune. Ainda mais relevante foi o fato de que todos os pacientes apresentaram melhora clínica significativa, que incluiu a interrupção do uso de imunossupressores e corticosteroides, além da normalização de marcadores laboratoriais, como anticorpos anti-DNA, níveis de complemento C3, proteinúria e creatina quinase.

Esse resultado reforça que a CAR-T pode não apenas controlar a doença, mas também redefinir o sistema imunológico, restaurando seu equilíbrio.

Um perfil de segurança encorajador

A segurança é uma preocupação constante em qualquer nova terapia. No caso da CAR-T em doenças autoimunes, os efeitos colaterais foram considerados manejáveis. A maioria dos pacientes apresentou apenas síndrome de liberação de citocinas (CRS) leve, do tipo grau 1, que não exigiu cuidados intensivos. Apenas um caso de infecção respiratória demandou hospitalização e outro apresentou um episódio neurológico reversível (ICANS grau 1).

Mesmo com a eliminação massiva das células B, os pacientes mantiveram uma resposta imune adequada a vacinas já recebidas, como aquelas contra pneumococos e o coronavírus SARS-CoV-2. Isso indica que, embora o sistema imune seja reprogramado, ele ainda mantém sua capacidade de proteção contra infecções conhecidas.

E quanto ao envolvimento neurológico?

Um dado surpreendente do estudo foi a eficácia da terapia em casos de lúpus com comprometimento neurológico. As células CAR-T foram capazes de atravessar a barreira hematoencefálica e eliminar as células B autorreativas presentes no sistema nervoso central. Com isso, os pacientes apresentaram melhora neurológica rápida e sustentada. Trata-se de um avanço inédito, considerando a complexidade do tratamento de manifestações neurológicas em doenças autoimunes.

A possibilidade de uso em doenças alérgicas

Talvez uma das descobertas mais intrigantes do estudo seja a possibilidade de estender o uso da CAR-T a alergias graves. Embora ainda em estágio experimental, pesquisas em modelos murinos e in vitro mostraram que células CAR-T podem ser projetadas para eliminar tanto células B produtoras de IgE patológica quanto eosinófilos, células diretamente envolvidas em respostas alérgicas exacerbadas.

Duas estratégias vêm sendo investigadas: uma foca na eliminação seletiva das células B responsáveis pela produção de imunoglobulina E, principal mediadora de reações alérgicas severas; a outra utiliza receptores quiméricos baseados interleucina-5 (IL-5), permitindo que as CAR-T identifiquem e eliminem eosinófilos hiperativados. Ambas as abordagens ainda precisam de validação clínica, mas oferecem um caminho promissor para doenças como asma eosinofílica e dermatite atópica grave, que hoje contam com opções terapêuticas limitadas.

Por que a CAR-T se destaca em doenças autoimunes e alérgicas?

A principal vantagem da CAR-T é sua capacidade de reprogramar o sistema imunológico de forma duradoura, sem a necessidade contínua de medicamentos imunossupressores. Enquanto terapias convencionais agem como “freios” temporários no sistema imune, as CAR-T removem as células causadoras do problema de forma precisa, permitindo a restauração de um equilíbrio imunológico saudável.

Além disso, por serem personalizadas, as células CAR-T oferecem um tratamento sob medida, adaptado ao perfil imunológico de cada paciente. Isso aumenta a eficácia e reduz os riscos de efeitos adversos severos.

Imunorreprogramação e o futuro da medicina personalizada

A compreensão imunológica por trás da eficácia da terapia CAR-T em doenças autoimunes está fortemente ligada ao papel central das células B na patogênese dessas condições. Em doenças como o lúpus e a esclerose sistêmica, as células B deixam de atuar apenas como produtoras de anticorpos e passam a exercer funções de apresentação de antígenos e secreção de citocinas inflamatórias, contribuindo para a perpetuação da resposta autoimune. Ao eliminar seletivamente essas células com a CAR-T anti-CD19, a terapia atua não apenas sobre os sintomas, mas sobre a raiz imunopatológica da doença, promovendo uma verdadeira reeducação do sistema imune. A regeneração do compartimento B com células naïve após o tratamento indica um “reinício” imunológico que pode explicar as remissões prolongadas observadas, mesmo na ausência de imunossupressores contínuos.

Esse raciocínio se estende às alergias severas, que, embora não sejam autoimunes, compartilham a lógica de uma resposta imune disfuncional. A asma eosinofílica, por exemplo, envolve a ativação exacerbada de eosinófilos e a produção de IgE por células B específicas — ambos alvos potenciais da engenharia CAR-T. Com o avanço da biotecnologia, torna-se possível desenvolver receptores quiméricos cada vez mais precisos, desenhados para interagir com marcadores moleculares exclusivos de células patogênicas, minimizando efeitos colaterais e otimizando a eficácia. Isso abre uma nova era de intervenções imunoengenheiradas, nas quais cada célula do paciente pode ser programada para atuar como um agente terapêutico altamente específico, moldando o sistema imunológico de maneira controlada e duradoura.

Desafios a superar

Apesar do enorme potencial, o uso da CAR-T fora da oncologia ainda enfrenta alguns desafios. O alto custo de produção, a necessidade de infraestrutura especializada e o risco de imunossupressão prolongada são fatores que precisam ser cuidadosamente avaliados. Também é necessário desenvolver alvos moleculares cada vez mais específicos, sobretudo em alergias, para garantir que apenas as células patológicas sejam atingidas.

Ainda assim, os resultados clínicos obtidos até agora abrem caminho para ensaios mais amplos, e empresas como a Celluris vêm investindo fortemente na nacionalização dessas tecnologias, tornando-as mais acessíveis e sustentáveis a longo prazo.

Avanços promissores

A aplicação da terapia CAR-T em doenças autoimunes e alérgicas representa um dos avanços mais empolgantes da medicina personalizada nos últimos anos. Os estudos mais recentes mostram que é possível alcançar remissão clínica duradoura, com segurança e sem a necessidade de tratamentos imunossupressores contínuos. Além disso, o potencial de expandir essa abordagem para condições alérgicas graves pode abrir um novo leque de opções terapêuticas para milhões de pessoas que hoje convivem com doenças crônicas de difícil controle.

Leia também em nosso blog sobre a escassez de nutrientes para aumentar a potência e a segurança das células CAR-T em tumores sólidos.

Referência bibliográfica:
ROSSI, Federico; SANTAMARIA, Rubén Fernandez; CASTAGNOLI, Riccardo. CAR-T cell therapy in autoimmune setting: a new appealing approach extendable to allergy?. Allergy, [S.l.], v. 80, n. 10, p. 2421–2422, 2025. Disponível em: https://doi.org/10.1111/all.16585. Acesso em: 13 out. 2025.