A terapia com células CAR-T tem se consolidado como uma das mais promissoras inovações no tratamento de neoplasias hematológicas refratárias. Ao modificar linfócitos T do próprio paciente para que reconheçam e destruam células tumorais, essa estratégia alcança respostas profundas e duradouras, mesmo em casos onde outras terapias falharam. No entanto, sua implementação exige centros altamente preparados, com estrutura técnica e organizacional dedicada ao manejo clínico especializado.
Terapia CAR-T: uma revolução que exige estrutura especializada
O impacto da terapia CAR-T no tratamento do câncer é inegável. Sua aplicação clínica, no entanto, envolve riscos significativos e uma logística complexa. Pacientes submetidos a esse tipo de tratamento frequentemente podem desenvolver efeitos adversos graves, como a síndrome de liberação de citocinas (CRS) e a síndrome de neurotoxicidade associada a células efetoras imunes (ICANS). O manejo eficaz dessas complicações requer centros hospitalares com infraestrutura robusta e equipes multidisciplinares treinadas.
Estrutura hospitalar necessária para um centro de terapia CAR-T
De acordo com as recomendações da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH), a instituição que administra CAR-T deve contar com uma unidade hospitalar experiente em infusões de produtos celulares e uso de medicamentos citotóxicos. É imprescindível que haja uma UTI próxima e equipada, além de um estoque garantido de tocilizumabe, fármaco essencial para o tratamento da CRS. O centro também deve ter neurologistas capacitados para o manejo da ICANS, assim como intensivistas e infectologistas familiarizados com a complexidade do tratamento.
Outro aspecto fundamental é o suporte transfusional imediato, bem como um protocolo operacional padronizado para todas as etapas do processo. A recomendação é que centros de CAR-T estejam preferencialmente integrados a programas de transplante de medula óssea, dada a similaridade nos requisitos estruturais e operacionais.
Formação e atuação da equipe multidisciplinar
A administração da terapia CAR-T exige muito mais do que uma equipe médica. É necessário um time integrado de hematologistas, neurologistas, intensivistas, enfermeiros, farmacêuticos, psicólogos, nutricionistas e assistentes sociais. Todos devem estar alinhados em protocolos de atuação e preparados para intervir de forma rápida diante de qualquer sinal de complicação.
O treinamento contínuo dessas equipes é indispensável, especialmente em um contexto onde o conhecimento sobre os efeitos colaterais da terapia CAR-T ainda está em evolução. Reuniões periódicas, estudos de caso e atualizações científicas são ferramentas importantes para garantir a segurança do paciente.
Seleção criteriosa dos pacientes e exames pré-tratamento
A triagem correta dos pacientes é uma das etapas mais críticas para o sucesso terapêutico. A indicação deve considerar o tipo de câncer, o estágio da doença e a condição clínica geral. Pacientes com bom desempenho funcional, sem disfunções orgânicas graves ou doenças autoimunes ativas, são os candidatos ideais.
Os exames necessários incluem avaliação cardíaca, hepática, renal, neurológica e sorologias virais completas. Testes de imagem, como a ressonância magnética do crânio, são indicados em casos de sintomas neurológicos prévios ou suspeitos. Por se tratar de um processo que envolve coleta, modificação e reinfusão de células, muitos desses exames precisam ser repetidos antes do início da linfodepleção.
Linfodepleção e infusão do produto celular
Antes da infusão das células CAR-T, o paciente é submetido a um regime de quimioterapia com fludarabina e ciclofosfamida. Essa etapa prepara o organismo para receber as células modificadas, promovendo um ambiente favorável à sua expansão e ação terapêutica. A linfodepleção só deve ser iniciada após a confirmação da disponibilidade do produto celular.
A infusão das células é realizada com o paciente internado, sob monitoramento constante. Embora, na maioria dos casos, seja bem tolerada, podem ocorrer reações imediatas como febre, tremores e, mais raramente, arritmias ou depressão respiratória. Após a infusão, recomenda-se que o paciente permaneça próximo ao centro clínico por pelo menos quatro semanas, uma vez que muitas complicações surgem dias após o procedimento.
Manejo das complicações mais frequentes: CRS e ICANS
A síndrome de liberação de citocinas (CRS) é uma resposta inflamatória sistêmica provocada pela ativação massiva das células CAR-T. Os sintomas vão desde febre leve até hipotensão, hipoxemia e falência de órgãos. O tratamento depende da gravidade, podendo variar do uso de antitérmicos ao emprego de tocilizumabe e corticosteroides, com suporte intensivo em casos graves.
Já a síndrome de neurotoxicidade (ICANS) costuma ocorrer entre o quinto e o décimo dia após a infusão. Os sinais variam de confusão mental e afasia até convulsões e edema cerebral. O acompanhamento neurológico com a escala ICE, aliado ao uso de corticosteroides e anticonvulsivantes quando necessário, é a base do manejo. É importante destacar que o tocilizumabe não é recomendado em casos de ICANS isolada, pois não atravessa a barreira hematoencefálica e pode agravar o quadro.
Complicações infecciosas, citopenias e hipogamaglobulinemia
A imunossupressão induzida pelo tratamento aumenta o risco de infecções oportunistas, especialmente nas primeiras semanas. A profilaxia com antivirais, antifúngicos e antibióticos deve ser adaptada conforme o perfil de risco do paciente. Após 30 dias, o foco recai sobre infecções respiratórias virais e reativações como CMV e EBV.
Citopenias graves são comuns e podem persistir por meses, exigindo transfusões e uso de fatores de crescimento hematopoiético. A hipogamaglobulinemia, consequência da depleção de células B, deve ser monitorada com exames seriados. A reposição com imunoglobulina pode ser indicada em casos de infecções recorrentes associadas a níveis de IgG abaixo de 400 mg/dL.
Excelência estrutural para garantir segurança e resultados
A estruturação de centros especializados é essencial para garantir a eficácia e a segurança da terapia com células CAR-T. Desde a seleção do paciente até o acompanhamento de longo prazo, todas as etapas exigem rigor técnico, integração multidisciplinar e protocolos bem definidos. A Celluris contribui para messe movimento, apoiando a implementação responsável da terapia CAR-T no Brasil por meio de ciência, inovação e compromisso com a segurança do paciente.
Leia também em nosso blog sobre Imunoterapia com células CAR-T em hematologia-oncologia pediátrica: avanços e desafios.
Referência bibliográfica:
CLE, Diego V. et al. Consensus on genetically modified cells. I: Structuring centers for the multidisciplinary clinical administration and management of CAR-T cell therapy patients. Hematology, Transfusion and Cell Therapy, v. 43, supl. 2, p. S3–S12, 2021. Acesso em: 4 dez. 2025.
